Aplicativos de transporte oferecem conforto e causam impacto na mobilidade urbana

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Serviços como Uber conquistam usuários pela comodidade e afetam o jeito de se locomover nas cidades

A praticidade e a economia proporcionadas por aplicativos de transporte como Uber conquistaram até quem antes não se locomovia de automóvel e fizeram com que muita gente deixasse o carro próprio de lado. Vinícius Santos, coordenador de Inovação e Produtos Digitais da JLL, é uma dessas pessoas.

Ele costumava percorrer diariamente o trajeto de 43 km de casa ao trabalho com o seu automóvel, que decidiu vender em função dos altos gastos com combustível e manutenção. Antes, o conforto era a principal motivação para dispensar o transporte público.

Hoje, os aplicativos de transporte fazem parte da minha rotina, tanto para uso profissional quanto pessoal. Pessoalmente, utilizo mais para pequenas distâncias, como ir do trabalho para a faculdade, ou quando é tarde da noite, por comodidade e segurança”, diz Vinícius.

Vinicius vendeu seu carro e virou usuário assíduo de apps de transporte

Vinicius vendeu seu carro e virou usuário assíduo de apps de transporte

Mesclando o uso dos aplicativos com o transporte público, ele conseguiu a economia desejada: deixou de gastar com combustível, manutenção, IPVA, seguro e estacionamento para o seu antigo automóvel próprio, além de ter percebido outras vantagens.

“O maior benefício é o conforto. Não preciso me preocupar em ter atenção ao trânsito e em detalhes como onde vou estacionar ao chegar ao meu destino”, comenta o profissional da JLL, que, até quando opta pelo uso do transporte público, não deixa de recorrer a aplicativos de telefone celular. É pelo aparelho que ele checa os melhores horários e linhas de ônibus para superar o intenso trânsito paulistano.

Estudos avaliam impacto dos aplicativos de transporte no trânsito

Se, por um lado, os aplicativos agradam aos usuários, por outro, especialistas ainda divergem quanto ao impacto que o serviço tem na mobilidade das grandes cidades.

Um estudo realizado em Nova Iorque pela consultoria Schaller, especializada em transportes, concluiu que os aplicativos estão piorando o trânsito por fazerem menos pessoas utilizarem o transporte público. Os dados mostram que, para cada milha (1,6 km) que um carro particular deixa de circular, as chamadas Transportation Network Companies, ou TNC, como Uber e Lyft (concorrente do Uber nos EUA), adicionam 2,6 milhas (4,2 km) ao trânsito.

Porém, uma pesquisa feita pelo University of Michigan Transportation Research Institute em Austin (Texas) apresentou outro cenário. A cidade norte-americana proibiu serviços desse tipo entre maio de 2016 e maio de 2017 e, por isso, permite entender precisamente como a ausência dos aplicativos muda o comportamento das pessoas. Veja as respostas dos mais de 1.200 entrevistados:

  • 42% passaram a usar outros aplicativos semelhantes que ainda operavam na cidade;
  • 41% disseram que voltaram a usar seu próprio carro para fazer as viagens que antes realizavam pelos aplicativos;
  • Apenas 9% compraram um carro depois da proibição dos aplicativos;
  • 3% passaram a usar o transporte público da cidade.

Para Arthur Igreja, professor de inovação e tecnologia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os aplicativos vieram para ficar.

As pessoas se deram conta de que ficam mais produtivas, pois podem aproveitar o tempo do deslocamento para outras coisas, e gastam menos do que com o carro próprio. É um serviço que caiu no gosto do brasileiro, tanto que o Brasil é um dos principais mercados da Uber”, afirma.

A Uber está presente em mais de 60 países e, dos seus 75 milhões de usuários, 22 milhões estão no Brasil. São cerca de 600 mil motoristas parceiros atuando em mais de 100 cidades no País. A 99, principal concorrente, atua em mais de 1.000 municípios brasileiros e conecta mais de 600 mil motoristas a 18 milhões de passageiros.

“Os aplicativos acabam cumprindo a função que, idealmente, seria do transporte público e colaboram para reduzir o número de carros nas ruas. Recursos como corridas compartilhadas entre mais de uma pessoa contribuem para isso”, opina o professor da FGV.

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