Avenida Rio Branco, uma história de transformações

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A Avenida Rio Branco está comemorando 110 anos. Neste momento, encara o desafio das alterações no trânsito em toda a sua via para as obras do chamado Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).

Quem passa pela Rio Branco hoje, com todas essas mudanças de mobilidade urbana ocorrendo, talvez nem lembre quanta história essa importante avenida tem para contar, a começar pelas mudanças arquitetônicas ao longo do tempo. Atualmente, é preciso estar atento para apreciar os 10 imóveis daquela época que foram mantidos, a exemplo do número 30, local da antiga Caixa de Amortização, hoje Banco Central, que tem em seu interior uma rotunda decorada por painéis de mosaicos dourados. Na fachada, colunas neoclássicas em mármore de Carrara e janelas decoradas com guirlandas. Além do Banco Central, outros edifícios são de domínio público e tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)  e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac): a Biblioteca Nacional, a própria sede do Iphan, o Museu Nacional de Belas Artes, o Theatro Municipal  e o Centro Cultural da Justiça Federal, antiga sede do Supremo Tribunal Federal. Também são tombados pelo estado o prédio do Clube Naval e os imóveis 88 e 155 da avenida.

Alinhada ao projeto de remodelação do Rio de Janeiro da década de 1900, sugerido pelo então prefeito Pereira Passos, a chamada, a princípio, de Avenida Central, foi totalmente inspirada em Paris, contando com 1.800 metros de extensão, 33 metros de largura, pequenos abrigos para pedestres e prédios em estilo eclético. Todas as construções obedeceram às regras de um concurso de fachadas, que garantiam que os prédios ficariam semelhantes aos de Paris. A avenida foi inaugurada, então, em 1904, com 30 prédios acabados e 85 em fase de obras.

Em conversa com o Panorama, o engenheiro José Carlos Leal, 75 anos, diretor da SERPEN – Serviços e Projetos de Engenharia – consultora dos projetos de urbanização e transportes da cidade do Rio, nos conta um pouco da história da avenida.

A cidade, em 1904, vivia uma fase ruim, de insalubridade:

Os estrangeiros, principalmente, tinham medo de pegar uma doença – malária, febre amarela e varíola, por exemplo. A cidade recebia muitas pessoas que saíam do campo e vinham para a cidade por causa da crise da produção cafeeira no Brasil (logo após a abolição da escravatura). Não havia espaço para todo mundo, nem condições sanitárias. E aí se começou a desenvolver no governo de Pereira Passos um movimento que era apelidado de “Rio bota abaixo”. A população era transferida para outras regiões e era eliminado tudo o que era antigo, abriam-se novas ruas e avenidas e tudo, principalmente a arquitetura dos prédios, imitava o que se via na capital francesa na mesma época. Assim, surgiu a chamada Praça Paris, aberta ao público até hoje. Era preciso adequar o Rio de Janeiro ao status de capital do Brasil, com largas avenidas e edifícios imponentes”, conta o engenheiro.

Em 1909, era inaugurado na Cinelândia, na então Avenida Central, o Theatro Municipal, como parte do conjunto arquitetônico das Obras de Reurbanização da Cidade do Rio de Janeiro. José Carlos conta que o terreno na região da Avenida Rio Branco, na altura do teatro, era muito pantanoso.

As fundações eram feitas com troncos de eucaliptos, que em terrenos encharcados e úmidos, têm uma resistência brutal. Se esse terreno secar, ele perde totalmente a sua característica estrutural. Então, quando foram abrir a galeria do Metrô na altura da Rua 13 de Maio, viram que era preciso fazer um rebaixamento do lençol d’água. Mas não podiam fazer o rebaixamento do lençol d’água do Theatro Municipal. Foi então feita uma obra cara e difícil, mantendo o lençol d’água alto debaixo do Theatro Municipal e baixo nas escavações do Metrô”, revela.

Hoje, a famosa Avenida Rio Branco, palco de grandes eventos culturais por conta dos seus museus e do Theatro Municipal, também reúne multidões em passeatas. Está muito diferente do que foi projetado há mais de um século, sem deixar, no entanto, de manter seu compromisso com a proposta inicial de ser uma referência urbanística da cidade. Seu valor de mercado, de acordo com os especialistas da JLL, é um dos mais altos do Estado, comprovando a sua importância.

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Foto: Larissa Castro