Como tornar seu prédio mais eficiente em energia

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JLL faz processo de retrocomissionamento, uma forma de ajudar os prédios a ganhar maior eficiência energética.

okamura1Nos países mais desenvolvidos e que adotam uma matriz energética de alto carbono, está ganhando força o conceito dos edifícios de energia zero (zero energy building – ZEB). De modo simplificado, são prédios cuja quantidade total de energia utilizada, em uma base anual, é igual ao volume de energia renovável produzida localmente (net zero site energy) ou adquirida de outras fontes renováveis (net zero source energy). Para entender mais sobre essa novidade, a revista Panorama entrevistou André Okamura, gerente de engenharia, projetos, SSO, energia e sustentabilidade da JLL.

Como o Brasil está em relação a esse conceito de edifícios de energia zero?

Por aqui, as novas edificações começam a surgir com a ideia sustentável de fontes alternativas, mas de forma ainda bem tímida e longe do padrão internacional. As ações de eficiência precisam contemplar três pilares – o ambiental, o social e o econômico. Esse conceito ainda é pouco utilizado por aqui, porém tem ganhado força – como a adoção do Selo Procel de Edificações, que estabelece padrões de avaliação de quão eficiente é o empreendimento. Um ponto que pode alavancar uma reversão dessa situação são legislações recentes contendo isenções fiscais para edificações certificadas em cidades de referência como São Paulo, Rio de Janeiro, Guarulhos, entre outras.

Por que estamos atrasados nesse processo?

Existe uma questão cultural no que se refere à aprovação de investimentos de médio e longo prazos, que via de regra são valores mais elevados e com resultados muito mais expressivos, mas, em geral, vêm sendo postergados. Outro ponto é quando o objetivo está associado à pegada de carbono, o que ocorre frequentemente em empresas multinacionais. Aqui a pressão é menor, já que nossa matriz energética é baseada essencialmente em hidrelétricas, que gera uma energia mais limpa. Isso nos deixa numa situação muito confortável em relação a mercados onde a matriz é a carvão ou nuclear, por exemplo. A pegada de carbono é calculada conforme a matriz energética local e, aqui no Brasil, ela é muito menor se comparada a países como França e EUA, por exemplo. Isso significa que, ao fazer um acordo internacional de redução de emissões, o Brasil já sai na frente, por produzir uma energia mais limpa e nos coloca também no final das prioridades de investimentos.

E os prédios novos, muitos deles possuem certificações de sustentabilidade?

Uma pequena quantidade tem certificação, porém ela é uma primeira etapa, que estabelece parâmetros de operação básicos, pensados para fazer mais com cada vez menos. Essa certificação demanda um monitoramento dedicado para adaptação dos procedimentos aos ocupantes, com especial cuidado ao turnover de equipes de operação cujo conhecimento pode se perder tão rapidamente. Mesmo nos edifícios novos, muitas das tecnologias existentes no mundo ainda não são aplicadas. No Brasil, por exemplo, ainda usamos muita refrigeração, enquanto nos Estados Unidos e na Europa um prédio inteligente nasce como uma caixa forte, não permitindo a saída ou a entrada de energia, por isso é menos dependente de ar-condicionado ou calefação. Há uma inteligência adaptativa instalada fazendo com que as edificações reajam aos seus usuários de maneiras cada vez mais eficazes e em breve a internet das coisas (IoT) vai mudar radicalmente como vemos os prédios.

O que poderia estimular investimentos em autossuficiência energética dos prédios no Brasil?

Há quase um ano, foi criado o Programa de Desenvolvimento da Geração Distribuída de Energia Elétrica (ProGD), que abre a possibilidade de todos gerarem energia. Antigamente, tinha a geradora, a distribuidora, e a energia chegava ao consumidor. Era só uma via. Agora as coisas estão mudando. Se o consumidor tiver capacidade de gerar eletricidade para seu consumo, ele pode colocar o excedente na rede e obter uma remuneração. A maximização da geração distribuída vai aliviar o sistema de fios de distribuição, que hoje é insuficiente. Imagine que a energia que abastece São Paulo, por exemplo, vem de Itaipu, viajando milhares de quilômetros. Se todos os telhados de São Paulo tivessem painéis solares, deixaríamos de consumir de Itaipu, aliviando o sistema e evitando a necessidade de grandes investimentos em linhas de transmissão e essa energia seria destinada a outra região, como o interior das Regiões Norte e Centro-Oeste, que ainda usam muito gerador. Haveria ainda um ganho extra, que seria a redução de faltas de energia por aproximar gerador de consumidor.

Quando deveremos ter prédios autossuficientes por aqui?

Com a tecnologia atual e as características de empreendimento brasileiro, na minha interpretação, é improvável chegarmos à autossuficiência energética por meios renováveis neste momento. Existem prédios que rodam 100% a gás natural. Se considerarmos o gás natural uma energia menos suja ou quase limpa, já temos prédios numa situação mais próxima da autossuficiência. O Brasil ainda é ineficiente em grande parte das construções. Um retrofit nesse sentido demanda um investimento muito grande e, em tempo de crise, provavelmente poucos optam por isso.

Como é possível melhorar a eficiência energética de um prédio existente e que não é tão novo e moderno?

Uma medida relativamente simples seria trocar caixilharias antigas por outras mais modernas, com melhor vedação e controle do sentido do calor e ruído. Você escolhe se quer deixar o calor entrar ou não, conforme a necessidade. Isso daria um efeito gigantesco, poderia reduzir o consumo em 30% a 40% e é uma meta alcançável. Do ponto de vista de ruído, que é perturbador e costuma ser ignorado, essa troca traz mais tranquilidade aos ocupantes, aumentando seu conforto e produtividade.


Como a JLL poderia ajudar os prédios a ganhar maior eficiência energética?

Fazemos um processo de retrocomissionamento, que é mais ou menos o seguinte: uma instalação é projetada, na sua época, para operar da melhor maneira possível. Alguns anos depois, se revisitamos o modo como a edificação vem sendo operada, vamos ver que muitas daquelas condições deixaram de existir, seja por turnover de funcionários, pelo descumprimento de procedimentos, pela falta de atualização ou por reformas internas. Os procedimentos se perdem no caminho, velhos hábitos se sobrepõem aos manuais. O prédio é um organismo vivo, e se fizermos um checkup, encontraremos muita coisa fora do lugar. O tratamento é voltar a operar como projetado e devidamente atualizado. Para isso, é preciso treinar as pessoas que operam, explicar os porquês dos parâmetros. Fizemos um retrocomissionamento na sede de um banco em São Paulo e houve uma redução de 30% no consumo de energia, o equivalente a uma economia de R$ 500 mil por ano, sem praticamente nenhum investimento.

Como os usuários podem colaborar?

O usuário é o consumidor do prédio. Precisamos envolvê-lo de maneira lúdica, ensiná-lo como usar o ambiente e os recursos. Devido ao rodízio municipal de veículos de São Paulo, muitas pessoas ficam até mais tarde no escritório. Fizemos uma experiência de mostrar aos usuários quantos litros de água são necessários para manter uma pessoa sozinha num andar. Para manter o ar-condicionado e a iluminação para apenas uma pessoa durante uma hora, eram consumidos de 6 mil a 7 mil litros de água para resfriar o ar-condicionado e gerar eletricidade. O que fazer para melhorar esse cenário, então? Nesses casos, se existir um café com mesas, ou uma área destinada a colaboradores volantes com conexão para o notebook, as pessoas que ficarem até mais tarde poderiam ocupar esse espaço alternativo nesse período e desligaríamos os seus andares de trabalho regular, por exemplo. A eficiência energética envolve operação e comportamento. Pesquisas dizem que 8% do custo de operação do prédio está relacionado à operação dos equipamentos e 92% à mão de obra, por isso é preciso educar as pessoas para o melhor uso do ambiente. A comunicação interna das empresas tem um papel importante nisso, pois todos devem estar muito engajados nesse esforço.