Valorizar a diversidade faz bem aos negócios!

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Nosso objetivo é avançar no desenvolvimento de políticas de valorização da diversidade e de combate à discriminação.

Lançamos, agora em março, o Comitê de Diversidade & Inclusão da JLL. Para o evento de lançamento, convidamos especialistas nesse tema, como Reinaldo Bulgarelli, da Txai Consultoria e Educação, e Guilherme Bara, da Fundação Espaço ECO, que nos ajudaram a refletir sobre essas questões.

Além de sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação – empresa com foco em sustentabilidade e responsabilidade social, direitos humanos, valorização da diversidade, relações com a comunidade, investimento social e voluntariado empresarial –, Reinaldo é coordenador e professor em escolas como FGV, FIA e Unicamp.

Nesta entrevista ao Panorama, Reinaldo – autor do livro Diversos somos todos – valorização, promoção e gestão da diversidade nas organizações – fala sobre a realidade da inclusão no ambiente empresarial e por que esse tema é importante para a economia e para o país.

PanoramaO Brasil ainda é considerado um “país atrasado” na questão de Diversidade & Inclusão. Quais os dados que indicam esse atraso, que mostram a desigualdade (na questão das mulheres, dos negros, das pessoas com deficiência, etc.)?

Reinaldo Bulgarelli – No ambiente empresarial temos dados que mostram uma ausência de mulheres, negros e pessoas com deficiência, por exemplo, na base das empresas, conforme nos mostra a pesquisa realizada pelo Instituto Ethos e pelo BID, lançada em 2016, com as 500 Maiores Empresas (leia Onde eles estão?, abaixo).

Quando olhamos para o topo, essa ausência se intensifica. Os negros representam 53% da população brasileira e as mulheres, 52%. Temos, portanto, um problema grave de discriminação que não se sustenta com o discurso sobre falta de qualificação, porque a distância no acesso a melhores posições na empresa é muito maior do que a distância entre brancos e negros no acesso à educação. No caso da mulher, a situação é ainda mais grave, porque há muito tempo o número de anos de estudo é favorável à mulher.

Consideramos que há um atraso preocupante, porque temos uma sociedade muito violenta contra os negros, sobretudo os mais jovens, contra pessoas LGBT, contra as mulheres. Os dados gerais de violência mostram que temos um sério problema, que atinge em cheio a diversidade.

PanoramaComo as empresas podem contribuir para a valorização da diversidade e para acelerar a inclusão? Como a inclusão adiciona valor aos negócios?

Reinaldo Bulgarelli – As empresas têm um papel importante para quebrar o círculo vicioso da exclusão. O exemplo da inclusão de profissionais com deficiência tem demonstrado o impacto na autoestima dessas pessoas, a melhoria da relação com a própria família, com a escola, com os meios de transporte, o mundo do lazer e do turismo, entre tantos outros espaços que passam a ser demandados positivamente.

É evidente que manter uma parte significativa da sociedade excluída – neste exemplo estamos falando de quase 25% da população que apresenta algum tipo de deficiência – causa prejuízos para as pessoas, para os negócios e para a sociedade. O oposto, a efetiva inclusão, tem impactos positivos na economia, na qualidade das soluções oferecidas pelas empresas em seus produtos, serviços, atendimento, entre tantos outros aspectos.

Ao valorizar a diversidade e explicitar compromissos com o tema, as empresas têm atuado para elevar o patamar cultural da sociedade, tão violenta, passando a mobilizar para horizontes mais positivos.

PanoramaQual o papel da escola/educação para a transformação dessa realidade?

Reinaldo Bulgarelli – As organizações mantêm uma relação de interdependência, e temos visto que a inclusão no ambiente empresarial causa forte impacto no mundo da educação. O contrário, infelizmente, não tem tido o mesmo resultado. Os negros, por variados motivos, incluindo cotas em universidades públicas de excelente nível educacional, não estão encontrando oportunidades no mercado de trabalho, assim como acontece com as mulheres, que são quase 60% dos brasileiros com nível universitário.

A escola tem um papel importante, que não está relacionado apenas a ampliar o número de anos de estudo de alguns segmentos da população. A convivência entre todos em ambientes respeitosos, seguros, justos e inclusivos prepara todas as pessoas para uma sociedade mais sustentável e para o mercado de trabalho mais evoluído nesta questão.

Precisamos de pessoas, todas elas, preparadas para reconhecer valor na diversidade e para interagir de maneira aberta, criativa e inovadora. A escola pode gerar esse aprendizado essencial para o século XXI.

Onde eles estão?

Em sua sexta edição, o Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas – pesquisa realizada pelo Instituto Ethos e pelo BID – mostra que, à medida que se sobe no nível hierárquico, diminui consideravelmente a presença de mulheres, negros e pessoas com deficiência nos postos de gestão.

As mulheres, por exemplo, que têm uma participação majoritária no contingente de aprendizes (Resultado de imagem para Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas55,9%) e de estagiários (58,9%), passam a ser minoria nos níveis seguintes. Sua presença representa apenas 31,3% dos cargos de gerência e de 13,6% do quadro executivo. Apenas 11% dos membros do Conselho de Administração são mulheres.

Os negros são maioria somente entre os aprendizes (57,5%) e entre os trainees (58,2%). No nível dos estagiários, essa proporção cai para 28,8%, reduzindo-se para 6,3% na gerência, para 4,7% no quadro executivo e 4,9% no Conselho de Administração.

Os índices relativos às pessoas com deficiência são ainda mais preocupantes: elas representam 2,33% do quadro funcional. Em todos os níveis, de aprendizes aos executivos, sua participação é inferior a 1%. Não há registro, nesse levantamento, da presença de pessoa com deficiência em Conselhos de Administração.