Geraldo von Rosenthal: Uma lição de vida no esporte

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“A vida se encarregou de me mostrar o caminho, apontar as possibilidades, e acreditar que quase tudo na vida da gente é possível com dedicação e perseverança”, diz Geraldo von Rosenthal.

Panorama entrevista o esportista que participará dos campeonatos esportivos no Rio de Janeiro

Na JLL, somos todos responsáveis por fazer da empresa um espaço de trabalho harmonioso, produtivo, diverso e inclusivo. Respeitamos e gostamos das diferenças, pois entendemos que as ideias e características de cada um nos tornam profissionais e seres humanos melhores e porque, assim, conseguimos vencer juntos os nossos desafios, com mais inovação e criatividade.

O Panorama, aproveitando o momento de competições esportivas no Brasil, entrevistou Geraldo von Rosenthal, um esportista com deficiência, campeão do tiro esportivo, que estará participando dos campeonatos esportivos que acontecem no Rio de Janeiro.

Geraldo mostra que a superação dos nossos desafios, em todas as nossas atividades, nos conduz a novos e melhores objetivos.

Quando você começou a praticar tiro esportivo? E por que começou nesse esporte?

Participei de algumas provas nos anos 90, na modalidade de tiro prático, porém como a minha deficiência não me permitia ser competitivo, e sendo eu um cara bem competitivo, acabei desistindo do tiro até o ano de 2007, quando resolvi comprar uma pistola de ar para campeonatos esportivos para atirar. E nem sabia que me qualificava como para-esportista até este momento.

O que você mais gosta no esporte?

A dificuldade de me concentrar. Acho que é o maior e mais difícil trabalho para uma pessoa com hiperatividade e déficit de atenção para competir no tiro esportivo, sem contar que, hoje, conheço praticamente todo o mundo, várias culturas, tenho amigos em praticamente todos os continentes, coisa que jamais conseguiria com meus próprios recursos.

Quantos recordes você tem?

Atualmente tenho os recordes brasileiros de pistola 10 metros, pistola 25 metros e pistola 50 metros qualificatória e final.
Pan-Americanos são na pistola 50 metros, qualificatória e final, e na pistola standard 10 metros. Nesta última, figuro em 1º. lugar do ranking mundial.

Como foi chamado para fazer parte da seleção brasileira de tiro esportivo?

Foi difícil, pois havia uma certa dificuldade em saber quais eram os critérios de convocação. Mesmo tendo já conquistado os três recordes brasileiros, eu não era convocado. Mas tudo se ajeitou, agora existem critérios justos e transparentes, onde o que manda é a tabela de pontos. Isso é mais justo honesto e prima pelo mérito do esportista.

Você participou da Copa do Mundo de Tiro Esportivo de Sydney, certo? Quando foi isso? Qual o seu resultado?

A copa do mundo de Sydney em setembro de 2015 foi um divisor de águas, pois foi a primeira vez que um brasileiro figurava entre os 8 finalistas, entrando em 8º lugar e ascendendo ao inédito 5º lugar na prova de pistola 50 metros que é, sem dúvida, a prova mais difícil de todas as modalidades de tiro esportivo. Este quinto lugar qualificou este brasileiro para os campeonatos. Por sorte, este brasileiro era eu.


Você participou de outros campeonatos esportivos para pessoas com deficiência?

O campeonato no Rio será minha primeira participação para pessoas com deficiência. As outras edições, por exemplo, na de 2008, eu não fazia parte da seleção, portanto não poderia me classificar. E em 2012, tive um problema na minha pistola com mais de 30 anos de uso, e não consegui a classificação.
Em 2013, na copa do mundo da Tailândia, conquistei a primeira medalha de ouro de um brasileiro em uma Copa do mundo em modalidades de pistola. Fato que sem dúvida alguma mudou a minha vida.

Quais têm sido os seus principais desafios? E como faz para superá-los? Lemos um pouco sobre a Síndrome de Poland (*) e deve ter sido difícil usar a arma com outra mão, carregar a arma… Pode nos explicar isso?

 

Não é o fim do mundo! Embora limite vários movimentos e atividades, me sinto uma pessoa normal. Isso muda quando estendo minha mão para cumprimentar alguém e essa pessoa tem um surto de “que mão é essa?” (risos). E recolhe a mão não me cumprimentando. É diferente, mas não morde ninguém. A parte que tange ao esporte é meio complicada, pois preciso tirar a mão a cada tiro para poder municiar, e isto é muito, mas muito prejudicial à precisão. Cada vez que empunhamos a arma, ela pode ser empunhada de forma diferente, implicando em erros de acionamento de gatilho. Esportistas que conseguem municiar suas armas com a outra mão dão 10, 15 vezes mais tiros do que isso sem soltar a arma.

Quantos competidores brasileiros participam do tiro esportivo, representando o Brasil, no Rio de Janeiro?

Também de forma inédita, teremos 4 participantes nesta edição dos campeonatos. Três deles com vaga direta: Eu, Débora Campos, Alexandre Galganni e Carlos Garletti (que já representou o Brasil nas duas últimas edições dos jogos).

Qual a sua mensagem para os nossos leitores?

Quando era criança, e não existia TV a cabo, eu assistia às competições e me emocionava ao ouvir os hinos, as entregas de medalhas. Achava aquilo lindo demais. Porém, tinha noção de que jamais poderia participar daquilo, pois, mesmo que, tendo uma deficiência leve, eu jamais conseguiria ter resultados que me levassem a participar de uma festa daquelas. Pois a vida se encarregou de me mostrar o caminho, apontar as possibilidades, e acreditar que quase tudo na vida da gente é possível com dedicação e perseverança. Acreditem nos seus pais, acreditem nos seus avós, aprendam com eles, pois eles bateram a cabeça antes de você, e com certeza vão ensinar o que não fazer para bater a sua. Vão te apoiar, repreender e te ajudar a levantar quando a vida te levar ao chão.
Acreditem nas suas possibilidades, escutem tudo, filtrem o que serve, e o que não servir…. não serve mesmo. Enfim, hoje sou um cara com 41 anos, que chorava olhando as disputas na televisão e que hoje vai representar o Brasil em uma disputa para pessoas com deficiência em solo brasileiro.
Toda a minha família acreditou em mim, mesmo nos momentos mais difíceis. Eu aprendi a chorar escondido para não demonstrar fraqueza e a chorar em público quando conquistei uma vaga para as disputas. Este é o jogo, está é a vida. Esta é a realidade de muitos que como eu lutam contra o preconceito, limitações, dificuldades e burocracias para fazer o esporte acontecer.

* Para saber mais, Síndrome de Poland.

Foto/ crédito: Graziela Batista