Livros de colorir aquecem o mercado.

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Estamos preparados para vender uma novidade?

Tem muita gente (grande) pintando por aí na tentativa de eliminar o stress. A oferta e a compra dos livros de colorir “desestressantes” – que ganharam os espaços das prateleiras das livrarias e das bancas de jornal em todos os cantos – fizeram aumentar também a procura frenética por outro produto: o lápis de cor.

A Faber Castell, maior fabricante de lápis de cor do Brasil, acostumada a vender os lápis principalmente antes de começarem as aulas, precisou até criar um terceiro turno na sua fábrica para atender a demanda dos varejistas.

Esse movimento do varejo, não se sabe, pode até ser passageiro, um modismo do momento.  As livrarias estão abarrotadas de livros de colorir. Só o livro “Jardim Secreto” já vendeu mais de 300 mil exemplares. Para vender os livros e os lápis, é preciso espaço físico nas lojas e também em galpões e centros de distribuição. Certo? Como o mercado reage ao ter que suprir essa demanda interna repentina?

O fato é que uma demanda reprimida foi identificada: os livros de colorir e lápis de cor para o público adulto. Os fornecedores apostam no aumento permanente desta demanda e o desafio é evitar falta de produto na prateleira e adequar a cadeia de suprimentos.

O varejista que tem melhor relacionamento com o fornecedor e domínio do processo de ressuprimento sai à frente da concorrência, pois evita a ruptura de estoque e mantém os produtos nas prateleiras para pronto atendimento. Atender a esse cliente bem implica em aumento do ticket médio, e aumento de demanda de produtos correlatos, como apontadores, estojos e pastas para esse novo hobby.
Para o fornecedor, muito mais que o espaço para armazenagem, o desafio é integrar toda a cadeia de supply chain de maneira que o lead time, tempo da entrega, seja o menor possível para o varejista. A frequência de entregas aumenta também, já que o espaço de estoque nas lojas é sempre limitado.

Muitas empresas, incluindo clientes nossos da área industrial, mantêm contratos de supply chain providers, no qual são definidos valores por m3/pallet transportado com uma transportadora/provedora de serviços de logística. É o que chamamos de third party logistics. Quando ocorre uma mudança brusca de demanda fica a cargo deste terceiro se adequar, que pode usar um espaço ocioso que possua ou subcontratar capacidade adicional por um período curto. Pode acontecer no curto prazo um aumento do preço médio por m3/pallet. Se a mudança for permanente no médio a longo prazos, há investimento em capacidade, que pode significar relocalização para galpões mais eficientes”, explica Roberto Patiño, diretor de Transações da JLL.

Mas por que as pessoas gostaram tanto da ideia de pintar para “desestressar”?

Ludmilla Gusmão Cavalcanti, psicóloga hospitalar do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, e analista associada do Corpo Freudiano, afirma:

Não vejo os livros de colorir como algo negativo. De fato, não podem ser vendidos como “antidepressivos”. E é difícil mensurar também se realmente desestressam. O que a pintura dos livros de colorir faz é tirar o foco dos problemas através desse mergulho em uma atividade prazerosa, sem a obrigatoriedade de trazer renda… Para alguns, no entanto, pintar o livro não é a melhor forma de eliminar o stress. Tem gente que prefere atividades que gerem adrenalina. Por outro lado, também vejo que a pintura dos livros de colorir é interessante culturalmente, pois temos escutado muitas críticas ao modo de viver dos tempos atuais. E a pintura se distancia do fenômeno da internet, da necessidade de estarmos plugados e em um lugar com wifi o tempo inteiro. O livro ocupa um espaço importante do lazer quando, como atividade individual, permite à pessoa ficar absorta, recolhendo-se no seu próprio silêncio, o que pode ser benéfico.”