Campeonatos esportivos de Londres, um marco no quesito sustentabilidade

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Os campeonatos esportivos vêm se consolidando como aliados de primeira hora no quesito aplicação de práticas sustentáveis.

Afinal, ao longo das últimas décadas, grandes eventos esportivos têm sido decisivos nesse sentido. Conseguem estimular investimentos em infraestrutura e revitalização urbana que têm como foco a redução significativa de impactos ambientais.

Essa filosofia, que já fez parte do contexto das disputas de Pequim, Barcelona, Sydney e Atenas, alcançou uma dimensão até então inédita na última edição do tradicional evento esportivo, realizado em Londres, em 2012.

Não à toa, pois a candidatura da cidade foi inspirada numa ampla e inovadora abordagem sustentável.

Em 2007, quando Londres publicou seu Plano de Sustentabilidade-2012, intitulado Towards a One Planet 2012, o documento já continha diretrizes bem definidas para toda a programação dos campeonatos esportivos.

A iniciativa foi levada à frente por diversas entidades, casos do Comitê Organizador dos campeonatos esportivos de Londres, da Autoridade de Obras, da Autoridade da Grande Londres e da Associação Britânica.

Impactos no setor imobiliário

As obras de revitalização urbana necessárias para a realização de uma grande disputa esportiva geram impactos visíveis de grande porte em três segmentos do setor imobiliário: hotéis, varejo e residências.

No primeiro quesito, o desafio é calibrar a oferta de quartos de forma que, após o evento esportivo, ela se sustente, garantindo retorno a possíveis investidores. Barcelona, sede dos campeonatos em 1992, é um exemplo negativo nesse sentido.

Por outro lado, Londres, que já possuía uma quantidade de quartos acima dos níveis solicitados pelo Comitê Internacional, parece estar sendo bem-sucedida e a caminho de encontrar seu ponto de equilíbrio.

Com uma oferta bastante variada e crescente de quartos, a cidade registrou taxa média de ocupação de 80% em 2008, o que faz com que os empresários do segmento se mantenham otimistas quanto à demanda por quartos e à expansão dos preços de locação, mesmo após os campeonatos espotivos.”

Os londrinos também têm motivos para comemorar quando o assunto são os resultado que os campeonatos deixaram na recuperação de imóveis e áreas hoje ocupadas pelo comércio varejista e centros de compra.

Aprovado antes mesmo da candidatura de Londres para sediar os campeonatoster sido aceita, o projeto Stratford City, da Westfield, simboliza a recuperação do varejo na região de East London.

Trata-se de uma área de 167 mil metros quadrados de espaço de lojas ao redor do Parque .  Fora isso, outros cerca de 41 mil metros quadrados adicionais foram alocados para mais espaços de comércio nas sete áreas dos Projetos de Legado.

O Plano contemplava cinco temas-chave: mudança climática; lixo; biodiversidade; inclusão e vida saudável.

Para cada um desses eixos temáticos foram estabelecidas metas ambiciosas. Na questão do lixo, por exemplo, um dos objetivos era reciclar 90% do entulho produzido em demolições. Hoje, esse percentual é cumprido com folga, o que reduz, entre outras coisas, o uso de energia e a emissão de carbono.”

Mas os efeitos positivos são potencialmente muito maiores, já que levam a mudanças em toda a cadeia imobiliária. Esse movimento é cada vez mais visível.

Segundo a JLL, cujo banco de dados possui mais de seis mil metas de sustentabilidade, antes da fixação do percentual a ser alcançado em reciclagem, nenhuma empresa do setor havia estabelecido objetivos nessa direção. Após 2007, no entanto, o cenário mudou completamente. Hoje, pelo menos seis companhias trabalham com metas desse tipo.

Londres também aproveitou a busca por eficiência energética, surgida com maior intensidade nos campeonatos, para conseguir avançar nesse ponto.

A forma encontrada para colocar isso em prática foi garantir que a empresa responsável por projetar, construir e operar a rede elétrica consiga obter receitas de longo prazo para viabilizar maciços investimentos no setor.

Londres ainda contabilizou um ganho extra, com a retirada de 52 torres de energia da linha do horizonte.

O projeto de aterramento, que demorou três anos para ser concluído, contou com a construção de túneis subterrâneos de seis quilômetros de extensão. Eles receberam 200 quilômetros de cabos e 1.300 toneladas de aço reciclado, oriundas das antigas torres de energia. As obras, orçadas £250 milhões, geraram 1700 empregos.

Com questões envolvendo gestão sustentável de lixo e energia elétrica bem encaminhadas, o próximo desafio a entrar na agenda de Londres deve ser o melhor uso dos recursos hídricos.

Durante a construção das instalações para os esportes, os imóveis foram projetados com o objetivo de utilizar até 40% menos água potável que a média local.

Além disso, os equipamentos esportivos, casos do Veloparque e da Arena de handebol, têm mecanismos para reciclar água e coletá-la durante os dias de chuva e utilizá-la para dar descarga nos banheiros.

Vários prédios novos da cidade deverão ter sistema hídrico duplo, contendo compartimentos independentes com água tratada ou reciclada.

Segmento residencial

O governo britânico também mostrou ousadia ao impor metas desafiadoras para adaptar os empreendimentos residenciais à sustentabilidade.

Segundo os novos padrões, até 2016, todas as novas residências deverão ter emissão zero de carbono.

Os planos do governo, contudo, não serão alcançados com facilidade. O setor de construção civil do Reino Unido vem, com frequência, chamando atenção para o fato de que o custo das residências sustentáveis pode ser proibitivo.

O governo pondera diz acreditar que os gastos de se construir de acordo com esses padrões cairão à medida que a tecnologia se torne mais amplamente disponível e a produção, mais eficiente.