Onde o Rio é mais carioca

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Cinelândia, Rio de Janeiro, 1930. Foto do livro “Rio de Janeiro – 1900-1930 – Uma crônica fotográfica”, de George Ermakoff. Uso autorizado pela G. Ermakoff Casa Editorial somente para Panorama Online. Proibida a reprodução.

Cinelândia, Rio de Janeiro, 1930. Foto do livro “Rio de Janeiro – 1900-1930 – Uma crônica fotográfica”, de George Ermakoff. Uso autorizado pela G. Ermakoff Casa Editorial somente para Panorama Online. Proibida a reprodução.

Palco da história cultural e política do Rio de Janeiro, a Cinelândia é o grande ícone carioca e o principal símbolo das reformas urbanas que ocorreram na cidade desde o início do século 20. Cravada no centro da capital, ganhou o charmoso apelido por sua grande concentração de cinemas entre os anos 40 e 60.

Esse cartão postal urbano do Rio, que teve suas cores esmaecidas em razão da falta de segurança e abandono de prédios nas últimas três décadas, ganha nova vida neste início de século. E a Jones Lang LaSalle também tem participação nesse movimento, cuidando da locação pós-retrofit do Cine Vitória, um dos marcos históricos da Cinelândia.

Opportunity faz história na Cinelândia

O Fundo Imobiliário do Banco Opportunity adquiriu o Cine Palácio (primeiro cinema carioca a exibir um filme sonoro) e o terreno ao lado, onde funcionavam o estacionamento da loja de departamentos Mesbla e outros 17 sobrados sem valor histórico. O cinema, tombado, será restaurado e se incorporará ao empreendimento, já em construção, com entradas pelas ruas das Marrecas, Passeio e Evaristo da Veiga, integrantes do Corredor Cultural no centro do Rio.

O empreendimento prevê um complexo comercial de 17 andares com mais de cem mil metros quadrados de construção, sendo 70 mil metros quadrados de área privativa, fachadas em pele de vidro, três subsolos de garagem com mais de 400 vagas e lojas no pavimento térreo. O projeto é considerado o maior acontecimento imobiliário na Cinelândia desde a década de 50. O fim das obras está previsto para 2014. “Será um grande centro empresarial com integração das três torres em todos os andares, o que permitirá uma ocupação horizontal de até quatro mil metros quadrados”, diz Jomar Monnerat de Carvalho, Gestor do Opportunity Fundo de Investimento Imobiliário.

Segundo o executivo, edificar um projeto dessa magnitude no centro do Rio de Janeiro é um desafio, mas todos os cuidados estão sendo tomados, inclusive para a obtenção da certificação de sustentabilidade (LEED), concedida pelo Green Building Council Brasil (GBC Brasil). “Temos um alto grau de exigência na qualidade final, na eficiência operacional e na futura satisfação dos locatários. Estamos construindo um centro corporativo de alto padrão que oferecerá o que as grandes empresas precisam”, explica Carvalho.

Nova vida ao centro

A primeira tentativa de revitalização aconteceu em 1980, mas não vingou, sendo retomada a partir de 1996. Desde então, a área tem passado por importantes reformas. Os sem-teto foram retirados, as pichações foram limpas e a região ganhou novas pedras portuguesas, melhorias no asfalto e iluminação, recuperação das rampas de acessibilidade e plantio de árvores.

Com a mudança de padrão imobiliário no centro, iniciou-se um forte movimento de ocupação corporativa na área, com a venda e retrofit dos prédios que abrigavam os cinemas. Os empreendimentos estão devolvendo à cidade os imóveis antes desocupados da Cinelândia, agora como novos espaços com ocupação de qualidade.

O retrofit do Cine Vitória e o empreendimento do Grupo Opportunity na Rua das Marrecas são dois grandes exemplos da volta dos imóveis corporativos de alto padrão na região do centro do Rio.
O Edifício Serrador é também outro caso de retrofit que devolveu à Cinelândia um espaço corporativo de qualidade, abrigando hoje a empresa EBX.

Vitória

Cinelândia, Rio de Janeiro | Foto: Alexandre Brum

Cinelândia, Rio de Janeiro | Foto: Alexandre Brum

Sediado no Edifício Rivoli, construído em 1939, o Cine Vitória fica no chamado ‘Quarteirão Serrador’, que abrigava as principais salas de exibição da Cinelândia. Com a degradação local, ficou abandonado por décadas. Hoje, encontra-se em obras, que serão concluídas até janeiro de 2013.

Como é tombado pelo Patrimônio Histórico, a reforma preservará a fachada em art-déco, mas o prédio será totalmente modernizado, com revisão da parte estrutural para abertura de espaços, uma nova torre e o uso de tecnologia de ponta nos sistemas, equipamentos e elevadores. No térreo funcionará um teatro e uma loja da Livraria Cultura com quatro mil metros quadrados e uma sala de espetáculos com capacidade para 200 lugares. Nos andares superiores serão construídos escritórios corporativos de alto padrão.

A Jones Lang LaSalle foi contratada para realizar a locação do edifício, cujos proprietários são o grupo Creative Real Estate (CRE) e o Banco Votorantim. A previsão é que os escritórios estejam 100% ocupados entre a entrega e seis meses após a conclusão da obra, com valor de locação estimado em R$ 120 o metro quadrado, reflexo do cenário extremamente aquecido do mercado na região.

Para Luiz Felipe Di Giorgio Mauad, sócio-gerente da Mauad Construtora, empresa responsável pelo gerenciamento dos projetos e pela obra, “o retrofit do Cine Vitória mostra que o uso racional desse tipo de edificação pode trazer grandes benefícios ao Rio de Janeiro, principalmente em áreas que carecem de espaços para crescer, com grande potencial de valorização”.

Broadway Verde-Amarela

Theatro Municipal do Rio de Janeiro | Foto: Alexandre Brum

Theatro Municipal do Rio de Janeiro | Foto: Alexandre Brum

A Cinelândia concentra os mais belos prédios, casarões e casarios do Rio de Janeiro, em uma verdadeira democracia de estilos que vão do colonial ao neoclássico, do art-nouveau ao art-déco. A sua história começa em 1750, com a inauguração do Convento da Ajuda, primeira edificação a se instalar no entorno da Praça Marechal Floriano Peixoto, entre as Ruas do Passeio e Evaristo da Veiga. O convento permaneceu na região por 161 anos, até ser demolido em 1911.

A forma da Cinelândia como é hoje conhecida começou a se desenhar a partir daí, quando o espanhol Francisco Serrador comprou o terreno. Idealista, visitou os Estados Unidos em 1922 e, maravilhado com a Broadway e Hollywood, decidiu que construiria um complexo de cinemas na área antes ocupada pelo convento. O projeto, iniciado três anos depois, previa a construção de cinemas, lojas, bares, restaurantes e até pistas de patinação.

Até a década de 40 foram inaugurados 11 cinemas e a região ficou conhecida como Cinelândia, a ‘Broadway Brasileira’. Também foram construídos teatros, clubes noturnos, boates e cassinos, além de hotéis onde aconteciam grandes festas e bailes de gala com a presença de personalidades do Brasil, astros da música internacional e ícones de Hollywood.

Foto antiga do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, localizado na Cinelândia | Foto: Ruy Barbosa Pinto

Foto antiga do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, localizado na Cinelândia | Foto: Ruy Barbosa Pinto

Como complexo arquitetônico, a Cinelândia apresenta relíquias como a Biblioteca Nacional, uma das dez melhores do mundo, e o centenário Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que também passou por retrofit. Ali também estão o Cine Odeon, que já foi título de música e hoje é palco de estreias e eventos artísticos, e o Museu de Belas Artes, cujo acervo teve origem no conjunto de obras de arte trazido de Portugal por Dom João VI, em 1808.

A Câmara Municipal do Rio fica ainda hoje ali, no Palácio Pedro Ernesto, em meio a uma vizinhança que abriga as antigas sedes do Supremo Tribunal Federal e Senado Federal, no Palácio Monroe, entre outras construções que testemunharam o nascimento do Brasil. Eclética, a Cinelândia permanece como arena democrática para onde convergem as principais manifestações artísticas, políticas e sociais de todos os tempos.

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