Planejamento de infraestrutura urbana é o grande desafio para tornar as cidades brasileiras mais inteligentes

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Quando pensamos em cidade inteligente, uma das primeiras imagens é de uma cidade futurista. Mas não é bem assim. A coordenadora de projetos da FGV Projetos, Silvia Finguerut, explica que cidades antigas também podem avançar nesse sentido e melhorar a vida de seus moradores.

Com 1.570 km2 de extensão ao lado do Rio Amarelo, a cidade sul-coreana Songdo é totalmente controlada pela internet – dos semáforos controlados por sensores no asfalto, ao descarte correto de lixo, que permite dar descontos ao morador que colocar uma lata de refrigerante na lixeira de coleta seletiva, sem falar da iluminação pública cujas luzes se apagam quando não há pessoas nas proximidades. A cidade começou a ser construída em 2003 e, 10 anos depois, tinha 67 mil habitantes. A energia é produzida a partir de luz solar captada por vidros e painéis fotovoltaicos, e um sistema otimiza o uso da água. Por essas e outras características, Songdo é considerada uma cidade inteligente. Mas ela foi construída do zero, planejada com base em conceitos avançados de sustentabilidade e eficiência, tendo consumido US$ 80 milhões em investimentos.

Como Songdo, existem outras cidades muito interessantes pelo mundo, como Fujisawa, no Japão, que também foi totalmente planejada. A cidade prioriza a energia solar e premia os moradores que consomem menos energia. A iluminação das ruas usa lâmpadas de baixo consumo, com detectores de presença ligados a câmeras de segurança. Entre outros diferenciais, os moradores podem alugar carros elétricos e bicicletas e o compartilhamento de veículos é estimulado.

Mas e as cidades consolidadas? É possível tornar mais inteligente uma cidade que existe há centenas de anos e que cresceu sem planejamento e sem os atuais conceitos de sustentabilidade e urbanização? Para Silvia Finguerut, coordenadora de projetos da FGV Projetos, unidade de assessoria técnica da FGV, é possível e já há diversas iniciativas neste sentido no Brasil. A especialista fala com exclusividade para o Panorama sobre o tema cidades inteligentes.

O que caracteriza uma cidade inteligente?

A cidade inteligente é aquela que se apoia no planejamento urbano e que busca soluções criativas, sustentáveis e participativas em seu processo de planejamento. Segundo a União Europeia, o conceito de Smart Cities ou Cidades Inteligentes pode ser assim resumido: são sistemas de pessoas interagindo e usando energia, materiais, serviços e financiamento para catalisar o desenvolvimento sustentável econômico, garantindo resiliência (entendida como a capacidade que uma população apresenta de conseguir adaptar-se às inovações e adversidades) e melhoria na qualidade de vida. Esses fluxos e interações se tornam inteligentes ao fazer uso estratégico de infraestrutura e serviços de informação e comunicação em um processo de transparência de planejamento e gestão urbana que dê resposta às necessidades sociais e econômicas da sociedade.

Como a tecnologia influencia nesse processo?

Há uma falsa crença de que é preciso inserir tecnologia na cidade para torná-la inteligente. A tecnologia está presente em todas as cidades a partir da conexão da sua população. Esta é uma realidade. Portanto, as cidades serão tão mais inteligentes quanto melhor souberem explorar o potencial de seus cidadãos conectados.

É hoje irreversível a “internet das coisas”, em que chips de conexão com a internet em carros, ônibus, celulares e outros dispositivos podem trazer enormes benefícios para a mobilidade urbana e para a qualidade de vida em geral.”

Quais são os desafios a serem superados para tornar nossas cidades mais inteligentes? Quanto tempo e investimento são necessários para isso?

O principal desafio a ser superado é o da infraestrutura urbana. As cidades brasileiras não dispõem de um planejamento para o crescimento da infraestrutura. Surgem novos bairros, condomínios, shopping centers e ruas sem planejar a infraestrutura de saneamento básico, energia e telecomunicações, que são fundamentais para tornar a cidade mais sustentável e, portanto, mais conectada e inteligente. Assim, paralelamente ao planejamento urbano, deve-se pensar em infraestrutura, o que tem altos custos e requer muito tempo para sua execução. Uma tendência mundial hoje são as PPPs (Parcerias Público Privadas) para a execução dessas obras de infraestrutura, especialmente quando a legislação municipal favorece e incentiva esse modelo de gestão, como as Operações Urbanas Consorciadas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Goiânia.

É possível tornar uma cidade já consolidada em cidade inteligente?

As oportunidades de criar cidades do zero, a partir de um planejamento prévio, são raríssimas no Brasil. Portanto, temos que buscar tornar nossas atuais cidades mais sustentáveis, oferecendo soluções inteligentes para melhorar a qualidade de vida, reduzir emissões de carbono. É possível favorecer a mobilidade não motorizada e gerar informações (Big data) para que os gestores possam tomar decisões corretas e rápidas a partir de eventos que impactem a cidade. Tudo isso está sob o guarda-chuva da cidade inteligente.

Quem deve ser envolvido nesse esforço?

Todos os cidadãos devem se envolver. Ao conectar um smartphone a um aplicativo de trânsito, por exemplo, estamos contribuindo para que os gestores da mobilidade urbana acompanhem o fluxo daquele trajeto. Cabe aos empresários e investidores levar em consideração que qualquer empreendimento imobiliário tem impacto na infraestrutura urbana e é sua responsabilidade mitigá-lo; não se colocar numa posição passiva de que toda a população, com seus impostos, deve pagar por infraestruturas que beneficiem o seu empreendimento. O papel do poder público é o de mediador e fiscalizador. Cabe a ele observar para que o interesse de todos seja atendido e que os impactos negativos sejam os menores possíveis.

Cite alguns exemplos de cidades brasileiras que desenvolveram iniciativas para serem mais inteligentes.

A área de mobilidade é a que oferece mais exemplos. Diversas cidades já contam com os centros de operação de trânsito e gestão da mobilidade. Algumas cidades estão ampliando a cobertura do território por câmeras de monitoramento, focadas na segurança. A saúde se beneficia do mapeamento de doenças por vetores, podendo intervir em determinadas áreas da cidade para combater esses vetores, como o Aedes Egypti. Quase todas as capitais das Regiões Sul, Sudeste e algumas do Nordeste e Centro-Oeste dispõem de algumas ferramentas para auxiliar na gestão e na implantação de políticas públicas.

Existe um perfil de cidade que possa avançar mais rapidamente nesse sentido em razão de tamanho, localização, principais atividades econômicas, etc.?

As cidades médias e grandes, aquelas que têm uma população entre 100 mil e 1 milhão de habitantes, são as que têm maior potencial para inserir as ferramentas de gestão inteligentes e buscar soluções criativas para seus desafios locais.

A grande vantagem das soluções hoje disponíveis é que existem ferramentas para cidades de diversos portes e para variados problemas urbanos. O principal desafio hoje é mobilizar a população para participar e colaborar com a gestão desses problemas. Dessa forma, a oferta de educação de qualidade e empregos qualificados em qualquer área econômica consiste na principal demanda para implantar soluções inteligentes.”

Quais os benefícios para a população que vive numa cidade inteligente?

Será sempre uma melhor qualidade de vida!

 

Foto: Shutterstock/ PKphotograph