Será que os BRICs foram fogo de palha?

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BRIC é um acrônimo, um acrônimo é uma abreviatura, e abreviaturas nem sempre são precisas.

Artigo escrito por Colin Dyer, presidente e CEO global da Jones Lang LaSalle | Foto: Acervo JLL

Artigo escrito por Colin Dyer, presidente e CEO global da JLL | Foto: Acervo JLL

As perspectivas da economia global são animadoras: estimativas do FMI indicam crescimento médio mundial de 3,1% este ano, patamar semelhante ao de 2012, e que deverá aumentar para 3,8% em 2014. Portanto, a recuperação continua, com um crescimento mais lento do que gostaríamos, mas muito melhor que nenhum crescimento.

Se examinarmos o número mais a fundo, desmembrado por economias específicas, a história fica mais interessante. Consideremos os BRICs, por exemplo. Esses países concentram cerca de 40% da população mundial e respondem por aproximadamente 25% do PIB global.

Ao longo de mais ou menos uma década, foi dito que as economias em rápido crescimento dos BRICs – Brasil, Rússia, Índia e, em particular, China (alguns observadores incluem também a África do Sul nesse grupo) – iriam tomar as rédeas econômicas do mundo, fazendo o poder do Ocidente migrar para os países em desenvolvimento. Agora estão dizendo que os cavalos dos BRICs estão ficando cansados e que seu desenvolvimento está se desacelerando. Em meados do ano, o FMI reduziu suas projeções relativas a esses quatro países para 2013.

No ano corrente, pudemos constatar isso nos nossos próprios negócios, com segundos trimestres hesitantes em cada um dos BRICs. As razões dessa desaceleração são muitas: redução dos investimentos no Brasil, inflação crescente na Rússia, capacidade ociosa em algumas das principais indústrias e setores da China, enfraquecimento da moeda e fuga de capitais na Índia. Os quatro países estão enfrentando problemas nas áreas política e social e tendo de lidar com essas difíceis questões.

E tudo isso vem ocorrendo num momento em que se espera que o crescimento dos EUA deva acelerar-se em 2014 e em que há sinais de progresso na Europa, que, segundo previsões, deve voltar a crescer no ano que vem. Portanto, a pergunta é a seguinte: seria a retomada do Ocidente? Os dias dos BRICs teriam acabado? Provavelmente, nem uma coisa nem outra.


BRIC
é um acrônimo, um acrônimo é uma abreviatura, e abreviaturas nem sempre são precisas. Apesar de os números do FMI para os BRICs serem baixos, eles mostram desaceleração do crescimento, não crescimento negativo. As previsões mostram Índia, Brasil e Rússia crescendo em 2014. A previsão relativa à China foi reduzida em 0,1%, para 7,7%. Embora não seja a taxa de mais de 10% que estávamos habituados a ver, esse último número pode sinalizar uma trajetória de crescimento mais sustentável. Além do mais, Japão, Reino Unido ou EUA adorariam ter esse problema.

Nos últimos anos, com as projeções econômicas tendo sido encaradas como surpresas – em especial, as revisões dessas projeções –, a surpresa tem sido mais para o lado positivo. Por exemplo, o índice de produção industrial recentemente divulgado pela China superou as expectativas dos analistas, sugerindo que a indústria do país voltou a crescer. Será que essa tendência continuará? Aguarde a próxima previsão.

Mas, afinal, o que os BRICs têm realmente em comum? A população da China é de 1,3 bilhão de habitantes e a da Rússia, de 140 milhões. A Rússia é uma grande exportadora de petróleo e a China, uma grande importadora de petróleo. A população da Rússia está envelhecendo e a população economicamente ativa da Índia está crescendo. Os fabricantes brasileiros estão preocupados com a perda de participação de mercado para a China em termos de investimentos e de exportações de produtos com baixo valor agregado.

Pode ser que faça mais sentido concentrar-se em cada um dos países dos BRICs, e não no acrônimo, e considerar a situação da dupla perspectiva de conectividade e volatilidade. Quando, por exemplo, rumores a respeito da política monetária dos EUA fazem a rupia indiana despencar, isso constituiria um claro exemplo de ambas.

A volatilidade não é de todo ruim. Se o fortalecimento da economia americana leva o Fed a deixar que se elevem as taxas de juros, os investimentos que haviam sido direcionados para as economias em desenvolvimento retornam para os EUA. Isso é ruim para a rupia indiana. Mas se uma economia americana mais forte cria mais oportunidades de exportação para a China, ajuda a Rússia a vender mais petróleo ou possibilita à Índia atrair mais contratos de terceirização, isso não é em absoluto ruim.

Quando adotamos essa perspectiva para pensar em nosso próprio futuro, nossas equipes nos mercados BRIC e em outras economias em desenvolvimento permanecem confiantes e otimistas. Elas não veem a volatilidade de curto prazo afetando suas perspectivas de crescimento no longo prazo nem, por consequência, o compromisso – e as relações – da nossa empresa com esses países, nos quais somos líderes de mercado nos serviços que prestamos a investidores e ocupantes corporativos.

Para terminar em um tom mais pessoal, viajo com relativa frequência para os BRICs para me reunir com clientes e com nosso próprio pessoal. Uma coisa que acho que a maior parte do mundo em desenvolvimento tem em comum é especialmente animadora: a força de trabalho jovem e qualificada – que já é grande e vem crescendo ainda mais –, instruída, altamente ambiciosa e muito, muito trabalhadora. Se, por exemplo, você pretender ficar parado na escada rolante de um prédio de escritórios de Xangai, não deixe de segurar no corrimão do lado direito para evitar ser carregado pelo fluxo de pessoas que passa correndo para cuidar de seus afazeres. Essas economias têm pressa, na verdadeira acepção da palavra, e estão criando ótimas oportunidades de negócios para elas próprias e para o restante do mundo.